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A mostrar mensagens de Novembro, 2010

O A(Pessoa)mento da escrita (Republicação) - a Fernando Pessoa

Vesti o que não quis, nem olhei O que podia vestir não quis Só depois pensei Que ao vestir-me errei "Quis tirar a máscara Estava pegada à cara"* Na crosta de uma chaga que não sara Deitar fora a roupa não resulta Nem trocar o corpo e a cara Teria ainda que pagar multa Por vestir o que não quis Ou pelo menos porque o fiz


*Álvaro de Campos - Tabacaria

Faíscas

Este fogacho de pensamento A que chamo temporária loucura É, no meu espelho Faísca de um pequeno talento Não me faz mais triste Nem me leva à brandura Ou a ser feliz Apenas vira mais forte e autêntico O que este poema diz

Bilhete único

Ofereço-te um bilhete único Para o melhor lugar no espectáculo Bem junto de duas aurículas E dois ventrículos Para veres o pulsar Do meu nódulo auricular Síncrono, compassado De vermelho sangrado São dez milhões de células A bater ao mesmo tempo De noite e de dia Passatempo de taquicardia Goza o espectáculo Goza a cena Que no final os beijos para a plateia Serão mais que uma centena Um bilhete único Para o melhor espectáculo Desta quinzena

EGOSURFING V - A VIDA DAS PALAVRAS NOUTROS BLOGS

são ossos

são ossos o que sinto não grito nem me canso nem sinto frio nem arrepio caio em mim e descanso só saio do lugar quando me puxarem para um lugar melhor
não... não arrisco maior dor

EGOSURFING IV - A VIDA DAS PALAVRAS NOUTROS BLOGS

nome próprio, feminino, singular

Há nos olhos do destino Um barco sem rumo Um fogo sem fumo Um joio sem trigo Um amor sem-abrigo Uma obstinação Um moinho sem mó Uma garganta com nó Que aperta o coração Adivinho a tormenta De uma noite sem luar De uma lua magenta Nome, feminino, singular

A minha energia

A minha energia vem do brilho De um olhar perfumado Dissolve-se na espera Não se sente ou explica Vem e vai Um dia fica

EGOSURFING III - A VIDA DAS PALAVRAS NOUTROS BLOGS

Sem esforço

Queria que houvesse um tempo Que parasse num dia Para não ter o esforço de pensar Nem sequer me sentir vivo Para só saber do tempo Quando o tempo Soubesse de mim Que seria feliz assim

EGOSURFING II - A VIDA DAS PALAVRAS NOUTROS BLOGS

EGOSURFING I - A VIDA DAS PALAVRAS NOUTROS BLOGS

prega-me um susto

prega-me um susto que eu gosto de não me fartar das coisas que são reais que eu com tão pouca ao meu barco no meu cais não trago a sorte nem a vida nem a morte

RESPIRAR

Empresto por uns tempos O nome dos meus dias Para que cresças devagar Reinvento a terra e choro Invento o tudo e o nada Descubro a verdade e o horário O sono, o silêncio E o contrário Descubro as minhas penas Descubro a minha respiração Apenas

Recado de garoto

Há sempre algo guardado para os amigos Mesmo que seja no fundo de um bolso Sujo e roto O resto de tabaco rançoso As aparas de lápis que se escondem De um recado de garoto Em papel de mortalhas Nem que seja a ternura e a compreensão Nem que seja apenas o mais simples Mesmo em migalhas

Balas e Palavras

Atravessa o dia e a noite Em sibilos cor de faísca Latejantes Sem rumo ou destino Com norte Entre os montes Sem som Sem falas À procura de um peito largo Um peito feito às balas Que as acolha sereno Na sua lavra Sem balbuciar Palavra