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A MÚSICA QUE SOBRA


Nem sei se entre a música que sobra

Fica alguma porta aberta

Ou se na melodia encoberta

Se rasga a folha do poema ou se dobra

Se a poesia me acena apenas de um vão de escada

Me mata sorrateira no gume da espada

Ou se espreita qual donzela quando me vou

Atrás da cortina de vidro da janela

Já não sei se foi ela que me encontrou

Ou se a descobri nua

Não sei se foi porque ela chorou

Quando passou à minha rua

Sei que foi delicado o meu gesto

Ajudar a poesia a ser maior

Só me pertence o braço infesto

De pretensioso conquistador

Nada mais que um gesto indolor

Nada mais que um beijo funesto


Foto: Reinventing the Cello II - Alexander Kharlamov (olhares.aeiou.pt)

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