OLHAR A PLANÍCIE



Estamos ali os dois, sentados a conversar há horas infinitas.
Sentados, aconchegados um ao outro, na erva húmida de um prado, no cimo do monte.
Ali perto, um homem conduz o seu arado pelo caminho longo da terra, trilhado por uma mula castanha, altiva. Gritos de ordem, interrompem, de vez em quando, a canção popular que ensaia.
Sente-se no ar o cheiro a terra molhada pela chuva miudinha que caíra nessa manhã, e o Sol aparece, a medo entre as nuvens.
Mais longe, para lá do olival, fustigado pelas varas e pelas mãos calejadas dos apanhadores, o balido das ovelhas daquele rebanho cria uma melodia estranha, entrecortada por tons diversos mas maternais.
É também ali perto a nascente de água cristalina que alimenta a planície e dá corpo ao ribeiro que a corta a meio.
O som do ladrar ordenante do rafeiro das ovelhas aproxima-se de nós, misturando-se com o chilrear dos pássaros, que pousam momentaneamente naquele choupo alto, ali mesmo, à nossa frente.
Aquela melodia natural é, ao mesmo tempo, bela e estranha para os nossos ouvidos, e faz as árvores balançar levemente.
A brisa matinal é fria.
É um lugar maravilhoso para amar…

Raul Cordeiro, 1987
2 comentários

Mensagens populares deste blogue

POEMA DE INDECISÃO

ESPERA MENINA, PELO BARULHO DOS GUIZOS

Natal