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OLHAR A PLANÍCIE



Estamos ali os dois, sentados a conversar há horas infinitas.
Sentados, aconchegados um ao outro, na erva húmida de um prado, no cimo do monte.
Ali perto, um homem conduz o seu arado pelo caminho longo da terra, trilhado por uma mula castanha, altiva. Gritos de ordem, interrompem, de vez em quando, a canção popular que ensaia.
Sente-se no ar o cheiro a terra molhada pela chuva miudinha que caíra nessa manhã, e o Sol aparece, a medo entre as nuvens.
Mais longe, para lá do olival, fustigado pelas varas e pelas mãos calejadas dos apanhadores, o balido das ovelhas daquele rebanho cria uma melodia estranha, entrecortada por tons diversos mas maternais.
É também ali perto a nascente de água cristalina que alimenta a planície e dá corpo ao ribeiro que a corta a meio.
O som do ladrar ordenante do rafeiro das ovelhas aproxima-se de nós, misturando-se com o chilrear dos pássaros, que pousam momentaneamente naquele choupo alto, ali mesmo, à nossa frente.
Aquela melodia natural é, ao mesmo tempo, bela e estranha para os nossos ouvidos, e faz as árvores balançar levemente.
A brisa matinal é fria.
É um lugar maravilhoso para amar…

Raul Cordeiro, 1987
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POEMA DE INDECISÃO

Se houvesse nos teus olhos um pouco mais de Sol, um pouco de chuva, um pouco mais de vinho, um pouco mais do açúcar da uva. Podia beber-te e saborear-te.

Se não fosse só ilusão a tatuagem na sombra da tua mão, o delírio em que despertas e corres para mim na bruma,
Podia mergulhar, nu, na tua espuma.
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Se tivesse partido as algemas e roído as grades, e olhado os precipícios com sangue de herói,
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Se tivesse acabado tudo o que comecei, beijado o que não beijei, se tivesse visto o Sol mais cedo,
Seria agora um desvendado segredo.

Foto: Polyommatus icarus - Rui Cardoso (olhares.aeiou.pt)

ESPERA MENINA, PELO BARULHO DOS GUIZOS

Espera menina
Não partas ainda que a poesia não finda
Espera menina
Pelos olhinhos que te faço
Espera menina
Pela estação infinda
Espera menina
Prepara o teu regaço

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Esquece o mau e o bom
Esquece o choro e a lágrima
Escuta a canção e o tom
Esquece os beijos
Esquece o medo e o segredo
Esquece os desejos

Espera menina
Enquanto exploro e desbravo o arvoredo
Espera menina

POEMAS DE AROMA SEM RIMA

São poemas de aromas os que tenho no meu jardim
São danças de cheiros voláteis
Rodopios de alecrim
São doces cheiros de café e canela
São pinceladas de manjerico
Verdejantes na janela
São cheiros e delícias da noite e do dia
É o cheiro do luar que abafa a melodia
Melodiosa a árvore e a folha
Ao vento e sem medo
Escondendo o seu cheiro
No meio do arvoredo
São poemas de aromas os que tenho no meu jardim
São folhas de chá de lima
Doce ou salgado
Seco ou molhado
Na chávena de uma lágrima
São mesmo assim poemas de aroma
São poemas de aroma sem rima
Foto: Manto vermelho - Carlos Afonso (olhares.aeiou.pt)